Dizem que ele está “gagá”, mas se esse bicho mordesse a todos talvez fôssemos mais autênticos, dando como desculpa a caduquice.
O Programa Silvio Santos, condicionado ao popularesco, não segue como exemplo de diferencial. Até porque a receita já é velha conhecida: pegadinhas, caravanas, jogos com artistas e aviõezinhos entopem o horário.
Porém este domingo (25) o apresentador protagonizou o incomum. Crítica à música da cantora Shakira: “Isso não é música. O que é isso, loca, loca?!“
Até então seria mais umas das pérolas que ultimamente tem soltado, a exemplo de quando falou ao vivo que em sua plateia só havia canhão.
Mas então eis que pede uma “música de verdade” e toca uma composição de Vicente Celestino, da década de 30.
Por consecutivos minutos, O Ébrio, tocou inteira, com direito a mímicas e ordem para não interromper.
Ao final disse que a maioria deve ter trocado de canal. Mas sem se importar defende: “Isso sim é música!”
Pode ter sido apenas a percepção pessoal de uma jornalista, mas se não houve encantamento, no mínimo trouxe perplexidade.
Em horário nobre, competindo com Fantástico e Domingo Espetacular, o cara pára a programação e coloca uma música com uma parte falada de quase 3 minutos.
Talvez ver senhorinhas cantando toda a letra transpirando emoção, tenha remetido a uma outra época. Sem saudosismo barato, mas um tempo de mais poesia e qualidade nas composições.
O Ébrio
Recitativo – Falado : Nasci artista. Fui cantor. Ainda pequeno levaram-me para uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo, até chegar aos píncaros da glória. Durante a minha trajetória artística tive vários amores. Todas elas juravam-me amor eterno, mas acabavam fugindo com outros, deixando-me a saudade e a dor. Uma noite, quando eu cantava a Tosca, uma jovem da primeira fila atirou-me uma flor. Essa jovem veio a ser mais tarde a minha legítima esposa. Um dia, quando eu cantava A Força do Destino, ela fugiu com outro, deixando-me uma carta, e na carta um adeus. Não pude mais cantar. Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho de seu eu: a minha filha. Uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar. Voltei novamente a cantar mas só por amor à minha filha. Eduquei-a, fez-se moça, bonita… E uma noite, quando eu cantava ainda mais uma vez A Força do Destino, Deus levou a minha filha para nunca mais voltar. Daí pra cá eu fui caindo, caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa. Até que acabei por levar uma vaia cantando em pleno picadeiro de um circo. Nunca mais fui nada. Nada, não! Hoje, porque bebo a fim de esquecer a minha desventura, chamam-me ébrio. Ébrio…
Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer
Aquela ingrata que eu amava e que me abandonou.
Apedrejado pelas ruas vivo a sofrer.
Não tenho lar e nem parentes, tudo terminou…
Só nas tabernas é que encontro meu abrigo.
Cada colega de infortúnio é um grande amigo,
Que embora tenham, como eu, seus sofrimentos,
Me aconselham e aliviam o meu tormento.
Já fui feliz e recebido com nobreza. Até
Nadava em ouro e tinha alcova de cetim
E a cada passo um grande amigo que depunha fé,
E nos parentes… confiava, sim!
E hoje ao ver-me na miséria tudo vejo então:
O falso lar que amava e que a chorar deixei.
Cada parente, cada amigo, era um ladrão;
Me abandonaram e roubaram o que amei.
Falsos amigos, eu vos peço, imploro a chorar:
Quando eu morrer, à minha campa nenhuma inscrição.
Deixai que os vermes pouco a pouco venham terminar
Este ébrio triste e este triste coração.
Quero somente que na campa em que eu repousar
Os ébrios loucos como eu venham depositar
Os seus segredos ao meu derradeiro abrigo
E suas lágrimas de dor ao peito amigo.
* O apelido Perú foi colocado por Manoel de Nóbrega, pois quando Silvio falava ficava muito vermelho. Então ficou, “Caravana do Perú que Fala”, na Rádio Nacional.
* Assista ao vídeo.






























































